O primeiro acesso à elite: XV de Jaú campeão de 1951

inicioO XV de Jaú foi fundado em 1924, mas disputou a primeira competição profissional em 1948. A 2ª divisão do campeonato paulista começou a ser disputada em 1947, mas foi apenas em 1948, com a criação da Lei do Acesso, que o campeão conquistou vaga na elite do futebol paulista. O Galo da Comarca foi a quarta equipe da história a conquistar o acesso. Antes, XV de Piracicaba (1948), Guarani (1949) e Radium de Mococa (1950) foram os campeões. Nessa época, o XV de Jaú mandava seus jogos no Estádio Arthur Simões. Dificilmente perdíamos em nossos domínios. Na campanha de 1951, juntando campeonato paulista com amistosos, foram 29 partidas disputadas em casa, com 24 vitórias e 5 empates.

Semifinalista no ano anterior

Em 1950, o XV de Jaú chegou perto de conquistar o acesso. Na campanha da primeira fase, foram 13 vitórias em 18 jogos, com 57 gols a favor. Na semifinal, os melhores times do campeonato se enfrentaram para conhecer o campeão. XV de Jaú, Francana, São Bento de Marília, Ferroviária de Botucatu e Radium de Mococa eram os semifinalistas. Porém, com apenas 2 vitórias e 1 empate em 8 jogos, o XV de Jaú permaneceu da divisão de acesso. Dirceu foi o artilheiro do campeonato com 32 gols marcados.

33 - 1950 elenco do XV

EM PÉ: Osmar, Ciro, Inocêncio, Alceste, Serra, Oswaldinho, Pintado, Gonçalves e Sebastião. AGACHADOS: Mandora, Clovis, Fernandinho, Itamar, Duvilio, Dirceu e Waldemar Galante. Fonte: Acervo XV de Jaú

 

“Procurarei levá-lo, com a ajuda de Deus, a primeira divisão paulista”

Para a disputa do campeonato de 1951, o presidente Dr. José Magalhães de Almeida Prado (que seria homenageado na construção do novo estádio do XV) não poupou esforços e fez altos investimentos na equipe. Quando assumiu a presidência do Galo,  ele disse “Diga a família quinzeana, sei que é grande e unida e aceitando-me como presidente, farei tudo por esse grande clube e com auxílio e boa vontade de todos, procurarei levá-lo, com a ajuda de Deus, a primeira divisão paulista, tornando-o um dos maiores clubes do interior”. 

Sem dívidas e com o apoio financeiro dos “barões do café”, o esquadrão do time do XV de Jaú de 1951 foi montado peça-a-peça: em troca da ida para o Palmeiras do grande goleiro Inocêncio (Inocêncio chegou a atuar na campanha do Galo antes de ir para o Palmeiras e conquistar o intercontinental contra a Juventus de Turim no Maracanã), foram emprestados pelo Palmeiras ao XV de Jaú o goleiro Lourenço, o zagueiro Gengo, o médio volante Gérsio, o meio-campista Dino Sani e o centroavante Gino, todos campeões da Taça Cidade de São Paulo, do Torneio Rio-São Paulo e do Campeonato Paulista em 1950. Foram contratados o lateral-direito Rui, vice-campeão paulista amador pelo São Paulo; o ponta-esquerda Itamar, do Noroeste; e Grita, o zagueiro argentino, capitão da equipe, único atleta a jogar todas as partidas do campeonato e todos os jogos amistosos do ano de 1951. Além do lateral-esquerdo Clóvis, desde 1949 no XV de Jaú; de Guanxuma, o ponta-direita artilheiro do time no campeonato com 23 gols; e de Pinga II, o meia-esquerda irmão de Pinga, artilheiro da Portuguesa de Desportos. Contava, ainda, com Ciro, o “Pavão”, meio-campista de Jaú, Américo Murollo, ponta-direita vindo do Palmeiras e Servílio, o meio-campista artilheiro no ano anterior do campeonato da cidade de Campinas, com 17 gols. Alceste Madela Neto, treinador da equipe juvenil do XV de Jaú – tricampeã jauense – e grande colaborador do clube, trouxe Armando Renganeschi, campeão paulista pelo São Paulo como jogador em 1945 e 1946 (marcou o gol do título na vitória sobre o Palmeiras), para ser o treinador daquele time que desde a sua montagem já prometia ser grande. O argentino era conhecido por Renga.

Nos amistosos de preparação para a disputa do campeonato, o XV de Jaú saiu invicto dos 10 jogos realizados.

amistosos

Levantamento realizado por João Pedro Palomares Júnior

 

 Na primeira fase do campeonato, ele foi dividido em quatro setores, também chamados de zonas. O XV de Jaú estava na Zona Central, ao lado de 10 times: A. A. Palmeiras (Palmeirinha de Jaú), Ferroviária (Araraquara), São Paulo de Araraquara, Paulista de Araraquara, Internacional de Bebedouro, Mirassol, Olímpia, Uchoa , Atlético Monte Azul e Barretos.

O Galo da Comarca teve um início arrasador, com 7 vitórias consecutivas, sendo que o time jauense balançou as redes 26 vezes e não sofreu nenhum gol nelas. Após 20 jogos, o XV de Jaú se tornou campeão da Zona Central, com 16 vitórias, 2 empates e 2 derrotas, ambas fora de casa.  Durante a disputa do campeonato, o Galo da Comarca ainda realizou dois amistosos, vencendo São Paulo e XV de Piracicaba.

primeira fase

Levantamento realizado por João Pedro Palomares Júnior

Susto na segunda fase e vaga na decisão

35Confirmado para a segunda fase, o XV de Jaú se juntou ao São Bento de Marília, Botafogo de Ribeirão Preto e Sãojoanense (São João da Boa Vista), classificados de outras zonas. Antes do início da segunda fase, o XV de Jaú realizou dois jogos amistosos contra o Bauru A. C. (popularmente conhecido como BAC), vencendo em Bauru por 2×1 e em Jaú por 3×1.

Novamente, seriam jogos de turno e returno. Na estreia do Galo, um balde de água fria. O time jauense foi até Marília para enfrentar o São Bento, e voltou para casa com uma goleada de 6×1. Gino marcou o único gol nosso. Mas o XV não se abateu, e derrotou o Sanjoanense por 4×1 no Arthur Simões, com dois gols de Dino Sani. Um dos zagueiros da equipe de São João da Boa Vista era Hideraldo Luis Bellini, capitão da seleção brasileira no título de 1958 e responsável por eternizar o ato de levantar a taça de campeão.

Depois, mais três vitórias  para a equipe auriverde: 3×2 no Botafogo (Guanxuma duas vezes e Itamar) e 4×1 no São Bento em casa (Dino Sani, Pinga, Itamar e Gino), e 2×1 no Saojoanense (Américo Murolo e Itamar) fora de casa. O XV terminava essa fase como campeão do grupo, após 4 vitórias, 1 empate e 1 derrota, e garantiu vaga para a decisão do campeonato.

A essa altura do campeonato, já estávamos no ano de 1952. Com início em junho de 1951, o campeonato foi terminar apenas em 17 de fevereiro.

Final contra o Linense no Pacaembu

O Galo da Comarca teria pela frente o Linense, campeão do outro grupo após 5 vitórias em 6 jogos (no grupo do Linense estavam Internacional de Limeira, Corinthians de Santo André e Estrela da Saúde, da capital). Segundo o regulamento da competição, a decisão seria realizado em jogo único e em estádio neutro. No dia 26 de janeiro de 1952, XV de Jaú e Linense entraram no gramado do Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Milhares de torcedores jauenses lotaram ônibus, lotaram estradas, lotaram os trens que iam a São Paulo. Lotaram o Pacaembu, o “Gigante de Cimento Armado”. Foi um jogo eletrizante, mas a tática de Renganeschi (XV de Jaú) foi superior a de Nelson Teixeira (Linense), e o Galo da Comarca se tornou campeão após vitória por 4×2. Logo aos 30 segundos de jogo, Guanxuma abriu o placar para a equipe jauense. Ao final do primeiro tempo, o placar marcava 2×2. mas na etapa final, Pinga e Américo Murolo marcaram para o Galo, que se tornou campeão.

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Jabaquarada e invasão em Campinas

xv x jabaquaraO XV de Jaú havia conquistado o acesso e entraria no lugar do Jabaquara, último colocado do campeonato paulista da primeira divisão. Porém, o “Leão do Macuco” (apelido do time santista) questionou o regulamento não registrado de acesso e descenso pela FPF na então CND (Conselho Nacional de Desportos), e obrigou o XV de Jaú a enfrentar o Jabaquara para decidir se realmente haveria acesso neste ano. Ou seja, já havíamos conquistado o acesso, mas teríamos que conquistá-lo pela segunda vez no mesmo campeonato.

Sendo assim, o Galo da Comarca entrou em campo pelo primeiro jogo no Estádio Arthur Simões no dia 3 de fevereiro de 1952. Escalado com: Lourenço; Servilho e Grita; Gengo, Gérsio e Clóvis; Guanxuma, Américo Murolo, Gino, Pinga e Itamar, os comandados do Renganaschi enfiaram 5×0 no time da baixada santista. Os gols foram anotados por Américo Murolo aos 13, Gino aos 17, Itamar aos 25 e Américo Murolo aos 27 do primeiro tempo. Américo voltou a marcar no primeiro minuto de jogo da segunda etapa.

37 - charge do acesso em 1951 2

 

Porém, no segundo jogo realizado no Estádio Ulrico Mursa em Santos, no dia 10 de fevereiro, o Galo da Comarca saiu derrotado pelo placar de 2×0. Era necessária uma terceira partida, em campo neutro. O Jabaquara sugeriu que o jogo fosse realizado na Vila Belmiro. A tamanho despautério, o presidente do XV de Jaú respondeu sugerindo que o jogo fosse realizado em Araraquara, no estádio da Ferroviária. A Federação Paulista designou os cinco melhores estádios do Estado (Moisés Lucarelli, em Campinas; Pacaembu, Parque Antártica, Parque São Jorge e Rua Javari, em São Paulo) para um sorteio. O escolhido foi o Moisés Lucarelli, estádio da Ponte Preta em Campinas.

Na tarde de 16 de janeiro, novamente, milhares de torcedores do XV de Jaú foram até Campinas em dois trens especialmente fretados para o jogo. Desde cedo a torcida jauense mostrava ser fiel ao time e não media esforços para vê-lo jogar!

Torcida do XV em Campinas - XV x Jabaquara

No primeiro tempo, embora o XV de Jaú jogasse melhor, o placar não se alterou. As emoções estavam guardadas para a segunda etapa.

Logo no início do segundo tempo, aos 6 minutos, um escanteio a favor do time do XV de Jaú. O ponta-esquerda Itamar bateu à meia-altura. A bola encontrou-se com a cabeça do ponta-de-lança Américo. Foi ao encontro da cabeça do ponta-direita Guanxuma. Da cabeça de Guanxuma para o gol. Era o vigésimo terceiro gol do artilheiro da equipe naquele ano.

Os jogadores do Jabaquara cercaram o árbitro do jogo, Dante Rossi. Reclamavam que o escanteio que originara o gol não tinha existido. As reclamações eram tantas que não permitiam o reinício do jogo. Tão acintosas que provocaram as expulsões de três jogadores: Barbui, Alemão e Olegário. Com apenas 8 jogadores, o Jabaquara não prosseguiu no jogo. Abandonou o campo alegando que o gol saíra de um escanteio inexistente, e o XV de Jaú foi declarado vencedor da partida! O XV de Jaú conquistava o acesso para a primeira divisão pela primeira vez em sua história! Uma campanha espetacular, com um total de 30 jogos, com 23 vitórias, 3 empates e apenas 4 derrotas.

36 - gol de Guanxuma contra o Jabaquara

Gol do Guanxuma aos 6 minutos do segundo tempo contra o Jabaquara em Campinas. Fonte: Acervo XV de Jaú

capa do acesso - 1951 - comércio jahu

Capa do jornal “O Comércio do Jahu” sobre a conquista quinzeana.

 

34 - campeão em 1951

Delegação vitoriosa!

 

 

OBS: XV de Jaú e Jabaquara voltaram a se enfrentar no mesmo ano pelo campeonato paulista da primeira divisão de 1952. O Jabaquara conquistou no tapetão o direito de permanecer na elite. O XV de Jaú venceu por 3×1.

 

Agradecimentos ao amigo Paulo Grange e ao amigo João Pedro Palomares Júnior.

Fontes: Revista de 82 anos do XV de Jaú; Revista de 61 anos do XV de Jaú; A história do campeonato paulista; Blog do Marcão; Colunas Kleber Mazziero (alguns trechos desta matéria são cópias idênticas do que Kleber escrevia em sua coluna no jornal “O Comércio do Jahu”. Eles estão destacados em itálico)

Tiago Pavini

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Um comentário em “O primeiro acesso à elite: XV de Jaú campeão de 1951

  1. Sensacional, lembro como se fosse hoje.Na ocasião tinha 6 anos e fui com meu pai ver a chegada do XV na estação nova como era chamada.Depois a festa foi na sede na rua Amaral Gurgel com muito fogos.

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